terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

A atriz.

Abriu lentamente o zíper do longo vestido dourado de seda. Um tomara que caia todo trabalhado com vidrilhos e canutilhos, as vestimentas de uma deusa. De lingerie, sentou-se na poltrona de veludo vermelho e admirou-se no espelho bisoté da antiga penteadeira, presente de um diretor muito amigo. Decidiu que tudo chegara ao fim, daquele momento não passaria.
Tirou os cílios postiços, destacou as unhas de porcelana e soltou os cabelos. Lembrou-se da juventude, de quando começara a fazer teatro. Eram tempos difíceis e sua juventude a atrapalhava. Era sonhadora demais.
Removeu a sombra clara sobre os olhos, passou o demaquilante para remover as grossas camadas de pó compacto, blush e corretivo. Mordeu algumas vezes uma almofadinha úmida de algodão e retirou o batom.
Seu ex-marido brotou perante seus olhos. Casaram-se no auge de sua carreira, quando migrou dos teatros para as grandes telas. O amou intensamente e, mesmo após a dura separação, permaneceu fiel ao sentimento. Ele a trocara por uma moça quinze anos mais nova. Percebeu que não teve filhos, então, a solidão lhe invadiu a alma.
Tirou o soutien, a meia-calça e a calcinha. Vislumbrou sua nudez e apertou a flacidez de sua barriga. Parara de fazer exercícios havia meses e naquela idade uma semana que fosse já era o suficiente.
O primeiro filme de sucesso. A premiére foi singela, assim como a própria produção. Um papel pequeno, nada muito expressivo. Depois veio o segundo, o terceiro, o quarto... Carregava então trinta filmes, numa carreira de quarenta anos.
Tirou as jóias. Começou pelo anel, lindíssimo. Então o colar; aproveitou e brincou com as bolinhas de pérola roçando-as nos seios, como uma dança infantil e sedutora. Foram-se os brincos e, por fim, a pulseira.
Desses trinta filmes, protagonizou quinze. Um número equilibrado, pensou. Quatro lhe renderam indicações ao Oscar. O Oscar, aquele careca dourado, sonho de consumo de qualquer atriz.
O início da dor. Tirou os cabelos, como se fosse uma peruca. Com o escalpo nas mãos, analisou as madeixas. Estavam começando a ficar grisalhas, precisavam de uma tintura.
Nunca ganhou um prêmio que fosse, embora tivesse concorrido as tais quatro vezes. Mas amava o tapete vermelho. Não encarava o fato como uma derrota; se por ali desfilou, algum valor tinha seu trabalho, tinha sido recompensada.
Tirou a perna esquerda, depois a direita... Apoiou o dorso no encosto de veludo e deu uma última olhada no que se podia ver refletido, já que o espelho só lhe mostrava da cintura para cima.
Após a quarta premiação perdida, fato que acabara de ocorrer, pouco mais de duas horas atrás, viu o ex-marido com a tal. Audácia, a vagabundinha na mesma festa em que ela estava, exibindo o homem que sempre foi seu!
Tirou o nariz, os lábios e as orelhas. Achou engraçada a figura que viu no espelho. Parecia um manequim velho, como que jogado no lixo após tanto uso. Riu alto.
O golpe. Durante a festa, descobriu que tinha perdido o papel para o qual tinha sido convidada semanas atrás. O diretor da nova produção cometeu a indelicadeza de puxá-la para esta conversa numa noite que deveria ser apenas de brilho.
Desacoplou os seios, removeu a vulva e desencaixou o braço esquerdo antes, já que era destra. Balançou-o levemente, para ver o movimento dos dedos da mão já sem vida.
A pedido da atriz principal, o convite foi desfeito. A vagabundinha achou que seria desagradável contracenar com a ex-mulher de seu atual marido. Tinha até esquecido que foi trocada por outra atriz. Ironias da vida. Sempre defendeu a honra das atrizes para, no final, ser traída por alguém de sua própria classe. Chegaram a ser amigas, claro, antes da traição premiada com um divórcio.
Agora era apenas um tronco liso, de apenas um braço, com uma cabeça sem feições, mas ainda com olhos. Chorou. Chorou desesperadamente. Sabia que era o fim. Se estivesse em cena, este último choro lhe renderia, finalmente, um Oscar, sem sombra de dúvidas. Arrancou os olhos e os apoiou na penteadeira como se fossem um par de óculos.
Finalmente, as peças finais. Pegou a cabeça e atirou longe. Apoiou a mão na altura de na cintura e, com muita pressão, soltou o último membro. Por fim, sobrou apenas o tronco apoiado na poltrona de veludo vermelho. Em volta, os pedaços largados ao sabor de sua decisão. Agora sim sentia-se nua, sentia-se livre... Não existia mais.
Na manhã seguinte, o escândalo nos jornais. As pessoas ficaram chocadas e estarrecidas por um mês, talvez um pouco mais. Esqueceram. Esqueceram como sempre esquecem tudo aquilo que é único. O povo tem memória fraca. E nunca mais se ouviu falar da atriz que se desmembrou frente ao espelho e largou seus pedaços pelo quarto.


Um comentário:

  1. sensacional...parabéns! Você tem talento...e muito.
    abçs
    Vanessa Valverde

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