sábado, 20 de março de 2010

Me encontre no divã...

Se expor. Aí está uma coisa difícil de se fazer, não é? Não. Se você não sente vergonha de viver e de ser quem é, não é nada complicado abrir o coração, nada que deixe suor nas palmas das mãos. Mas, nesse caso, para que o divã mesmo?
Nunca senti, verdadeiramente, vergonha ao contar algum capítulo do meu livro... Na verdade, quando aconteceu, foi por medo da reação das pessoas do que por achar tal passagem imprópria. Peco por me abrir demais e nunca arrancar as páginas mal-escritas; se fiz, fiz mesmo, e se me arrependi, me arrependi mesmo e não vejo motivo para vergonha... Aprende-se com os erros, os acertos são fáceis e não educam. Se fiz merda e não me arrependi? Podia simplesmente não ter sido pego. 
Continua a pergunta: para quê o divã então? Quando se passa por muitos apertos, com total despreparo, pode acontecer de uma pecinha sair do lugar. Logo que ela desencaixa, é empurrada por uma enxurrada de outras pecinhas que pretendem substituí-la - e é nessa troca de peças que acontece o amadurecimento, o envelhecimento e a troca de experiências.
O problema desse processo lúdico é quando a pecinha perdida trata-se de uma das essenciais; uma característica muito forte da personalidade, ou o gosto por algo não convencional que faz toda a diferença naquela pessoa, e até mesmo, pasmem, a personalidade.
Acreditem ou não, é possível perder a personalidade sem querer (ou querendo), e isso não torna uma pessoa mais fraca... Talvez torne-a detestável. Os motivos pelos quais isso acontece variam entre cada um; alguns tentam se adaptar a uma realidade, outros simplesmente não gostam de si e querem mudar, e por aí vai...
As pessoas mudam, é verdade. Mas quando elas mudam sem perceber e tornam-se caricaturas do que outrora foram, é porque alguma coisa está errada e, ás vezes, as mesmas não conseguem descobrir sozinhas o que as levaram a tal descaracterização.
O divã, ou a terapia, serve justamente para compreender o próprio ser e, quem sabe, descobrir em qual momento do livro foi perdida a pecinha tão querida e se é possível e necessário recuperá-la; ás vezes o estrago é grande demais para que haja um retrocesso, então, nesses casos, o melhor a fazer é aprender a aceitar e a amar aquele novo ser.
Deus deveria ser o primeiro a fazer terapia... talvez o caso dele já esteja perdido. Sem problemas, o psicólogo não vai solucionar? Sempre há um psiquiatra e um tarja-preta dando sopa por aí.
Que mundo é esse, meu Deus? Me sento no divã, mas tenho certeza que a humanidade precisa mais do que eu. Estou tentando recuperar a pecinha que me permitia conviver com as pessoas sem querer matá-las. E não falo no sentido figurado.



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