quarta-feira, 7 de abril de 2010

Cariocas não sabem chover.


Foto original tirada do Orkut de Felipe Collyer, um amigo. Na tira, a Praça da bandeira.

Preso em casa a mais de 24 horas. A televisão não entretém mais - até os canais a cabo tem seus limites. Na internet só se fala no dilúvio que assolou a cidade na noite de segunda-feira (05/04) e, até onde sei, pretende se despedir apenas na quinta.
Acordei ontem ás 15:00, muito feliz, crente que ainda era manhã. Quando liguei a televisão, me conscientizei do caos gerado pela chuva e também soube da iniciativa do prefeito em aconselhar aos cidadãos trepados nos morros que evacuassem as áreas de risco e prisões domiciliares à parcela mais afortunada da população.
O que me espantou não foi a chuva ou a cidade alagada, embora deva assumir que sou um carioca como os demais; Não tenho no meu armário um par de sapatos apropriados para dias chuvosos ou roupas mais impermeáveis - me limito a um guarda-chuva quebrado. O que mais me assustou foi saber que, pela manhã, pessoas precisaram ser resgatas pelos bombeiros porque estavam presas em ônibus. Estavam presas porque tinham saído para trabalhar.
O que manda o bom-senso em um dia como o de ontem? Você liga a televisão e vê metade da cidade embaixo d'água. Liga o rádio, escuta sobre deslizamentos e que foi decretato estado de emergência. Senta no computador e vê nos sites de notícia que a fama do temporal tornou-se internacional. O que é mais aconselhável a se fazer em uma situação dessas? Ir para o meio da rua, oras.
Não falo, obviamente, de pessoas que trabalham com serviços essenciais; Policiais, bombeiros, profissionais da saúde, etc. Entre os resgatados, aposto, havia pelo menos três vendedoras de loja. Pelo menos um advogado ou um estagiário da área.
Quando, em que realidade, essa gente acha que estar no trabalho é prioridade em meio a uma situação daquelas? Ou supervalorizam seu trabalho, acreditando que são indispensáveis mesmo que por um dia, ainda que tenham uma justificativa mais do que aceitável para não comparecer ao ofício, ou não tem a menor noção. Voto pela segunda opção.
Cariocas não sabem chover. A prova disso é que não só a cidade se mostrou despreparada para receber tanta água, mas a própria população não entendeu o recado. Os que foram pegos de surpresa na noite de segunda não podem ser questionados, pois imprevistos acontecem e podem pegar qualquer um de surpresa, mas as pessoas que sairam de casa para ir trabalhar na enxarcada manhã de terça com certeza agiram de maneira insana. Não foi um temporal. Não foi uma chuva de verão.
Existe também os cariocas que sabem que a chuva lhes é uma ameaça e, no entanto, persistem no erro. Quando há um deslizamento e morrem seis, ninguém espera. Nesse caso, pensa-se corretamente nas questões sociais. Porém, quando há um deslizamento, desabamentos e as pessoas que estão em áreas de risco se negam a sair mesmo sabendo do perigo, não é culpa de questão social nenhuma. è burrice mesmo.
Que sejam humildes, que não queiram perder tudo, que não tenham para onde ir... Tijolos e sofás das casas Bahia não valem uma vida humana. Perde-se tudo, exceto a vida. Pensam assim? Não. Não que prefiram morrer, mas falta-lhes a compreensão necessária para evitar tamanho perigo. Ou não. Se esforçaram tanto para ter aquilo que não conseguem conceber a idéia de perdê-lo, logo, pagam para ver e quando acontece, de quem é a culpa? Do governo ou dessas pessoas?
A culpa do governo se limita a permitir que essas construções continuem sendo feitas e em não remanejar esse pessoal; Precisamos de uma reforma social geral urgentemente. Achar que cada um merece o lugar que mora e que a irresponsabilidade é apenas dos que se colocam em risco é conversa fiada para amenizar o ataque à consciência coletiva. Somos culpados também. A manutenção desse absurdo também conta com nossa participação. Eduardo Paes tem se mostrado preocupado com essa questão, mas fica difícil esperar que um prefeito resolva décadas de erro.
Acho muito difícil julgar ou apontar erros, ainda mais por estar encastelado num condomínio em Ipanema, completamente privado de sentir na pele a realidade da chuva (e da vida) para todas essas pessoas. Posso apenas dizer que não pode continuar do jeito que está. Há um erro sério de prioridades por parte não só do governo, mas também do povo carioca.
Precisamos mesmo de uma "cidade da música"? A Cidade da Música é um ótimo exemplo para provar o erro na escolha das prioridades; Antes de se enfeitar a cidade para deixá-la mais agradável visualmente precisa-se reestruturá-la para a população - e convenhamos, aquele caixote caríssimo de cimento é horroroso, conseguiu deixar a Barra da Tijuca mais cafona do que já era.
Sei que caí no clichê, mas o quê fazer quando o clichê é a base do problema? Tudo se repete nessa cidade, inclusive as desgraças. Quando a solução é difícil, o mais fácil a ser feito é justamente o que permite a repetência do clichê: nada. Dancemos na chuva, sem o charme de Gene Kelly, pois o Clima-Tempo não nos fez boas previsões.

2 comentários:

  1. mto bom meu jovem! quando a chuva desabou em sp no início do ano, mtos fizeram piadinhas a respeito.
    EU disse naqueles dias, nós aqui no rj temos sorte, mta sorte msm, pq no dia que chover aqui a quantidade fora da normalidade, sofreremos igual aos paulistanos ou pior. Enfrentaremos o verdadeiro caos. Isso foi em janeiro...essa semana a tal chuva veio nos visitar e ja deixou um belo cartão de visita.
    Cariocas não sabem chover!abraços Mestre

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  2. ah esqueci de falar, Arnaldo Jabor falou sobre o tema tbm das chuvas no rj. Eu costumo gostar mto dos comentarios e críticas dele.
    Caso queira ver ta ae o link:
    http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM1243887-7823-ARNALDO+JABOR+FALA+SOBRE+A+TRAGEDIA+DAS+CHUVAS+NO+RIO,00.html
    Se ja tinha visto...ótimo xD
    abraços

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