quarta-feira, 26 de maio de 2010

Normal.

Faz algum tempo que não escrevo nada, e me arrisco ao dizer que faz ainda mais tempo que não escrevo alguma coisa que preste. Devo confessar que, apesar da faculdade de jornalismo e de acreditar no meu futuro como escritor, sou movido por ondas criativas que são facilmente abaladas... Muito embora meus problemas pessoais influenciem sempre, por outro lado, meus melhores textos saem em momentos ruins, como o de agora, por exemplo.
Hoje, aqui, vou sair um pouco da terceira pessoa para me colocar diretamente no paredão; Escrever em terceira pessoa ajuda muito quando o assunto abordado é delicado, mas se há uma coisa que deixa a vida insuportavelmente enfadonha é não arriscar em nada, então, seguindo essa linha, há riscos em sair da posição de "blogueiro" para me colocar como o Guilherme.
Nunca fui do tipo que se contém na hora de expressar aquilo que pensa, isso é bem uma verdade, porém, já faz algum tempo que não o faço com tamanha clareza. Anda me faltando entrega naquilo que escrevo; Escrever é o simples ato de transformar em palavras o que se tem dentro.
Sou extremamente perfeccionista, chego a beirar a paranóia. Perfeccionista com tudo aquilo que me comprometo a fazer, com tudo aquilo que vejo como objetivo. Não costumo me permitir erros, logo, vivo negando minha condição como ser-humano e como homem.
O grande atrativo de tudo que escrevo sempre foi minha presença nas palavras (não só na escolha de cada uma delas, mas sim em tudo o que elas representam no conjunto final), atualmente, não estou dentro de nenhum texto meu. Para um perfeccionista doente, isso gera o mesmo desconforto que um claustrofóbico tem ao entrar num ambiente fechado e pequeno.
Vamos aos fatos: acabo de sair de um relacionamento que durou um ano e sete meses. É difícil acordar um belo dia e pensar que não há mais aquela pessoa ao seu lado, claro, se obviamente ainda havia algum sentimento verdadeiro. Decidi terminar me protegendo com o famoso discurso do "desgaste natural" somatizado à máxima "eu te amo, mas não damos certo juntos", o que, em partes, foram grandes mentiras. O desgaste foi natural e, sim, não dávamos certo juntos, mas não por clichês, daqueles que vários casais conhecem. A grande espinha dessa extinta relação dizia respeito única e exclusivamente a mim, apesar da grande influência exercida pela pessoa com a qual namorei por todo esse tempo. Se pretendo me transformar em mártire? Numa pessoa sofrida, incompreendida e carente? Não, e é nesse "não" que reside o título desse texto. Eu sou normal, meus problemas são normais, tudo o que me diz respeito é bastante comum. Meu erro foi ter sido incompreensivo comigo, em ter negado minhas necessidades, minhas carências e minha própria essencia, tudo isso em prol do amor que sentia por essa pessoa. Pessoa essa que também não teve culpa, nada fez por mal, mesmo que eu ache egoísmo ela não ter sido percebido o quão sério era meu estado emocional e o que realmente o provocara, mas se eu mesmo não conseguia enxergar, como exigir que outra pessoa o fizesse, não é mesmo?
Eis o propósito do texto: se você se acha único, impar, incomum, raro, se encara seus problemas como grandes questões morais, insolúveis e exclusivos, meu caro, você está redondamente enganado. Todos somos ordináriamente comuns, previsíveis e frágeis. Você é único assim como eu, assim como todas as outras pessoas, independente dos traumas, dos acertos, dos erros... Por isso é muito questionável a mania de julgar que nós temos. Todo mundo erra, todo mundo se arrisca, todo mundo dá com os burros n'água vez ou outra e, a menos que se trate de um crime, a sensação ruim póstuma ao passo mal dado passa assim que o autor percebe o quão humano e imbecil por natureza ele é.
Sou um grande imbecil, vivendo no meio de imbecis, num planeta onde, talvez, os animais não estejam enquadrados nesse comportamento padrão. Pela primeira vez em muito tempo posso dizer que me vejo como uma pessoa ordinária, comum, passiva a qualquer erro, grande ou pequeno. Como perfeccionisma afirmo: é maravilhoso perceber toda a minha imbecilidade e todos os meus erros, porque a partir disso estou livre para cometer novos erros. Os acertos são excelentes, causam sensações de vitória muito gostosas, mas o que ensina, o que não se esquece, o que nos grandifica, sem dúvidas, são os erros.
Conclusão: pare de drama, pare de se cobrar tanto, pare de ficar tão preso ao julgamento dos outros e jamais, em tempo algum, se anule; Não se anule por causa de amigos, namoradas, empregos, sentimentos (meu caso)... Simplesmente seja, e lide com as consequências de o ser. Hamlet que me perdoe, mas "ser ou não ser" não é a questão, e sim aceitar ou não a própria natureza. Eu sou imbecil, e você?

segunda-feira, 10 de maio de 2010

O Carteiro; A Carta: o cinema brasileiro vai mudar.



Não faço a menor questão de esconder minhas preferências como cinéfilo, classificadas pelos mais entendidos como "pobres", e nem tenho pudores quanto as minhas restrições em relação ao cinema nacional, mas nessa crítica precisarei abrir um enorme parenteses e tirar o chapéu, ainda que acredite piamente nos malefícios do monopólio da Globo no que diz respeito ao nosso produto cinematográfico.
Hoje, dia das mães, fui ao cinema assistir ao filme "Chico Xavier ", uma espécie de biografia filmada que se baseou em um livro sobre a personalidade título. Assumo: fui para agradar dona Rosana, minha mãe, que cresceu ouvindo falar das proezas duvidosas do médium mais conhecido no Brasil, mesmo após sua morte em 2002.
O filme cumpriu muito bem seu papel, embora seja notória, ainda que para os leigos, a ausência de detalhes e os furos deixados na trajetória de Chico ao longo de sua vida. Pelo menos foram honestos, nos primeiros segundos de filme deixam claro que muita coisa foi deixada de fora.
A estrutura pela qual a história é contada parece clichê, e o é de fato, porém, foi o clichê mais bem reaproveitado dos últimos anos. A forma como o filme é trançado constrói muito bem as duas horas de duração do que pode ser considerado um novo clássico brasileiro, uma prova de que podemos e devemos evoluir na sétima arte.
Queriam contar uma história, enaltecer um homem e registrar amadoramente uma experiência única, que só pôde ser conhecida totalmente pelo já falecido protagonista.
A infância pobre, sofrida, apesar de triste, foi levada ás telas com certa beleza e um a leveza necessária ao tom que se pretendia. Nem mesmo a madrinha malvada, munida de um garfo afiado, foi capaz de ferir a aura que buscavam; Até os vilões mais detestáveis tornaram-se empáticos.
O ponto fraco do filme ficou na juventude compreendida entre a adolescência e a fase adulta de Chico; É aqui que o filme se arrasta, cansa. Ainda que cansativa, essa parte da história foi essencial para que viesse o desfecho, pouco surpreendente, porém, tocante e sensível. É um filme belo e merece ser assistido com os mesmos olhos de quem foi assistir "Piaf - Um Hino ao Amor", "Avatar" e "2012".
Chega desse preconceito com o que é nosso. Se temos um cinema limitado, violento e marjoritariamente cômico ou favelado, por outro lado, caminhamos na direção das grandes produções, com direito a muito sentimentalismo barato e efeitos especiais dignos de Hollywood. Que venha "Nosso Lar", trailer exibido antes de Chico surgir na telona.