quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Doença.

Faz algum tempo que não escrevo e devo confessar que estou aqui, agora, um pouco por obrigação. Tenho que escrever, devo assumir esse compromisso e não esquecê-lo por dois motivos: me faz bem, assim me expresso e coloco os demônios para fora, e, de certa forma, é o produto de todas as observações que faço no meu dia-a-dia; É precioso conviver com esse mundo de pessoas que nos cercam nos shoppings, nos ônibus, no metrô, na praia, etc. Entender o ser-humano é um de meus passatempos mais queridos... Ou pelo menos tentar entendê-lo; Entender a própria cabeça já é complicado, imaginem tentar decifrar a de estranhos que vão partilhar da sua vida durante aqueles poucos segundos em que passam por ela? De qualquer forma, é divertido.
O que me leva a escrever hoje, como já aconteceu outras vezes (sem a devida menção), foi o texto da coluna da Martha Medeiros para a Revista O Globo no último domingo; O texto fala sobre amor e sofrimento, em como nos vitimizamos perante um sentimento que nem sempre é leal e saudável.
Martha manteve seu foco na primeira pessoa, como costuma fazer, conversando diretamente com o leitor, falando sempre em como nos agredimos, limitamos e violentamos por causa de amores sofridos, doentes e amargos. Pois bem, me empolguei com o texto dela e gostaria de, humildemente, criar uma continuação, analisando a coisa sobre outro aspecto, pegando outro ponto de vista; Se muitas vezes nos permitimos entrar em verdadeiras furadas amorosas, nos envolvendo com pessoas que nada mais faziam do que nos causar sofrimento... E quando somos nós que enjaula-mos nossos amados e criamos martírios diários para prendê-los a nós? Assim como a moeda, todo ser-humano tem dois lados, o bom e o mau - e nem sempre pode-se dizer qual está voltado para fora e qual costuma vigorar sobre a personalidade de determinada pessoa.
O que eu não consigo entender é o que se passa na cabeça de pessoas que sabem o quão nocivas são àqueles que estão ao seu lado por opção; Qual é a graça em se relacionar com uma pessoa na qual você manda e desmanda? Diz a ela o que vestir, como se comportar, como agir, como e o que expressar... O lado sádico de torturar alguém que, na maioria dos casos, lhe quer bem. Conheci pessoas assim.
No fundo, acredito que os algozes façam isso por necessidade de auto-afirmação, como se moldar e controlar outro ser-humano o fosse tornar um criador, logo, um ser superior, mais evoluído e capaz de lidar com a vida e com os percalços oferecidos por ela; Enganam-se redondamente e caem na própria armadilha.
Na tentativa de excercer verdadeira superioridade, acabam apenas comprovando as suspeitas daqueles que os cercam: são inseguros, imaturos, egoístas e narcisistas do pior tipo, daquele que acredita não só na própria superioridade individual, mas que tenta transformá-la na realidade do que os cercam, dominando todo seu círculo social, concentrando sempre no par amoroso (presa óbvia, fácil).
Os algozes são quase sempre temperamentais; Pessoas conhecidas por uma "personalidade forte" (um eufemismo para efusivas ou histéricas) costumam se enquadrar no tipo mais comum de algoz; Não aceitam as diferenças e peculiaridades do parceiro e se assustam ante as diferenças, espelhando a incompreensão no próprio narcizismo, externando o sentimento gerado por meio de ordens, xiliques, choro e pose de vítima. Seriam vítimas do parceiro, que teima em ser daquele jeito, lhes causando sofrimento e motivos para dúvidas, acreditando e pregando que sempre serão o lado mais fraco da corda, prontos a serem cortados assim que o amado canse. Lobos em pele de cordeiro, sendo o disfarce tão bom que só se rasga quando já é tarde demais.
O algoz sempre vai procurar aquilo que lhe proporcionará domínio, pois é um predador natural movido pela incapacidade de se relacionar com alguém que julgue superior o suficiente para enfrentá-lo. A vítima é sempre aquele desavisado, fraco de espírito, desiludido ou cansado da vida por algum motivo especial.
Quando a vítima é fraca, de fato, o relacionamento pode durar por toda uma vida; Uma vida de abusos, de anulação, de inconsistências e falsa felicidade. Uma vidinha regrada de acordo com o compasso dos medos daquele que se julga amar, de acordo com os desmandos do amante de "personalidade forte".
Quando a vítima é forte, tendo se permitido àquela situação apenas por blackout de personalidade, a coisa muda de figura. O relacionamento se torna agressivo, frustrado, vivem aos trancos e barrancos enquanto medem forças, puxando a corda em direções opostas. É muito comum a vítima se tornar algoz num próximo relacionamento, aliás, creio que seja até uma lei de revezamento natural; Fazer antes que o façam com você, válido inegavelmente para o sofrimento - é melhor causar do que sofrer.
Quando uma doença desse tipo agoniza e morre, deve-se contabilizar os estragos, e é aqui onde os algozes mais se dão mal.
Normalmente as vítimas saem machucadas, sofrem, mas apresentam uma cura rápida, se recuperam antes do tempo estimado e logo se permitem uma nova aventura - até mesmo porque se foi ela quem decidiu assassinar o sentimento possessivo, é porque já estava cansada de tal situação, não sentindo nada além de um profundo vazio. Já os algozes, dentro de todo aquele narcisismo, esperam que a vítima volte, aos prantos, de joelhos, implorando pela reconciliação. E quando essa cena não acontece, eles enlouquecem. Não desistem de atazanar a vida do ex; Esperam a primeira oportunidade para sabotar o sucesso daquele ser tão fraco e tão dependente deles.
No final, os inseguros e mandões não aprendem a lição e as vítimas nada fizeram se não perder tempo para garantir alguma experiência emocional, possíveis traumas e um espírito cretino que a segue até que encontre outra alma para atormentar.

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