sábado, 2 de outubro de 2010

Um soco no estômago.

Não, esse não vai ser mais um texto dolorido sobre verdades desagradáveis... Não, minto, será sim, mas não pretende falar ao léu, sobre situações da vida. Meus últimos textos tinham o pretexto de passar alguma lição de moral e foram baseados em problemas que tenho enfrentado. Para falar a verdade, não gostei de nenhum deles.
Pois bem, vamos logo a questão: passei a última madrugada na casa de uma amiga assistindo a filmes; Ela escolhe um filme da cinemateca dela e eu escolho um da minha, é uma brincadeira de trocas; Eu aturo duas horas do gosto dela, ela atura duas horas do meu gosto. Não vou falar sobre o filme que levei (Rob Zombie's Halloween), mas sim do que ela me fez assistir.
Dançando no Escurdo (Dancer in The Dark) é estrelado pela cantora islandesa Björk e, se não me engano, data de 1999. A história é muito simples: as desventuras de uma operária tcheca, erradicada nos EUA, que está ficando cega devido a uma doença congenita, em meio a luta para conseguir o dinheiro necessário para que seu filho faça uma operação a fim de evitar o mesmo mal.
Assim como a história, a estrutura do filme é muito simples. Não obstante, trata-se de um musical. Não, Björk não usou o filme para promover um cd. Na verdade, não sei ao certo porque ela se arriscou a ser atriz, mas o resultado foi muito mais do que satisfatório; Ela deu um show de interpretação. Foi a primeira cantora que soube encarnar um papel no cinema - não me venham falar de Jennifer Lopez e Britney Spears, pelo amor de Deus. Madonna e Mariah? Esqueçam! Kylie Minogue está para atriz assim como igreja universal está para Deus (tem relação, mas não convence). Whitney Houston mandou bem em "O Guarda-Costas", mas não fez nada mais do que interpretar ela mesma.
Fazia muito tempo que não me sentia impotente perante um filme... Na verdade, acho que nunca senti o que me veio a garganta após "Dançando no Escuro". Não soltei uma lágrima, apesar de ter lacrimejado. Ele me serviu para dois questionamentos: o que é arte e por que achamos que nossos problemas são sempre monstruosos ou justificativas para nossos erros.
Em certo ponto do filme, todo o dinheiro juntado a duras penas é roubado pelo senhorio (afundado em dívidas) que lhe alugava um trailer fixo no quintal de casa. Quando ela tenta reaver a quantia, em uma cena absurda, o desgraçado inverte a situação toda e acaba sendo morto. Ele fode com a vida dela, não há termo melhor do que este para definir o que ele faz. Ela é presa (a melhor cena de prisão da história do cinema), condenada e enforcada.
O interessante é que o desfecho só foi esse porque ela foi fiel a uma promessa feita a seu algoz e por ter escondido a verdade de seu filho; Não queria sob hipótese alguma que ele soubesse que ela estava doente e que ele teria a mesma doença. Morreu por não ter ido contra seus valores, seu caráter, sua índole. Provou por A + B que agir corretamente não traz bons frutos sempre. O filho não ficou cego, mas em troca, ficou sem mãe, e tudo porque um infeliz não queria frustrar a esposa totalmente descontrolada com os gastos de casa. Selma (Björk) só se fudeu ao longo do filme, mas teve uma morte muito digna. Até o fim, honrou sua verdade, morreu por um bem maior.
Agora, sobre o que é arte... O que é arte? Sei que essa palavrinha abrange um universo muito maior do que a própria mente humana (limitada pelos 5% de cérebro que usamos), mas quando olho a minha volta, fico decepcionado. Vejo algumas exposições, alguns textos, algumas obras (de todos os tipos) e, apesar da classificação, não enxergo arte na maioria delas. Sei que existem artes de todos os tipos, que ela não tem e nem deve ter limites, mas mesmo assim desacredito na máxima de que tudo pode ser arte, sobretudo quando entra a opinião da sociedade.
A sociedade não é sensível o suficiente para reconhecer a verdadeira beleza, a essencia daquilo que se expressa por meio de um quadro, um poema, uma peça de teatro, uma escultura, um filme, uma história... Por isso talvez haja um deterioramento grave atingindo o que é a arte.
Há pouco tempo comecei a entrar em contato com o universo da Björk, mas esse pequeno toque foi o necessário para me chamar atenção sobre o que me cerca. Ela canta a seu modo, se expressa a seu modo... Faz clipes, letras, brincadeiras, olhares, tudo exatamente como quer. Sabe aproveitar todas as facetas que lhe são permitidas e brinca com o público tal qual uma criança brinca com formigas. Sabe que será chamada de esquisita por aquilo que faz, mas entende a extensão de tudo o que produz e deixa de lado as opiniões vazias, dando a cara a tapa. Não utiliza músicas com refrões repetitivos, não abusa de rimas, não lança cds com frequência e já tem mais de trinta anos de carreira.
Já vi algumas cantoras (principalmente as atuais do universo pop) dizendo que o que fazem é arte. Me desculpem, mas não, as senhoras não fazem arte. As senhoras fazem entretenimento. Podem abusar do playback, dos palcos luxuosos, dos figurinos abusados e deslumbrantes, podem até mesmo alcançar todas as notas para provar o quão são boas cantando. Não tem a arte como abrigo, como pólvora, apesar de todo o talento e dedicação. Maquiagem, beleza física e caras e bocas não as tornam habilitadas a definir que fazem arte; Sabem entreter muito bem, apenas isso.
Entretenimento pode andar ao lado da arte, aliás, deve andar junto para atrair as pessoas, mas jamais, em tempo algum, será a mesma coisa.
Não sou fã das músicas da Björk ainda, mas depois desse filme e de alguns de seus clipes, posso afirmar sem receios: Lady Gaga, Madonna, Kylie Minogue, Mariah Carey, Britney Spears, Amy Winehouse, Katy Perry, Ke$ha, etc, etc e etc, podem espernar o quanto quiserem. Sâo cantoras para se ouvir, para dançar. Björk é para se sentir, para digerir, e ela pouco se importa se vai ou não lhe causar uma indigestão. Ela é um soco no estômago.

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