quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Parte desse mundo.

Falar sobre programas de entretenimento comercial sempre é complicado, sobretudo quando o programa em foco é de apelo popular exagerado. Ano passado escrevi um texto depois da final do Big Brother Brasil 10 (após inúmeras tentativas durante o programa) falando sobre o vencedor da edição (Marcelo Dourado) e fazendo um balanço sobre o que o levou ao favoritismo do público. Talvez seja um dos meus textos que eu mais odeie; Ficou mal escrito, inconsistente, cheio de contradições e incoerências... Era notório meu desconforto ao falar sobre o assunto, ainda mais quando o público escolheu como vencedor o participante que mais amei e odiei em todas as edições. Como não curto muito voltar a textos anteriores à fim de consertar o que faltou ser dito, hoje volto a me jogar dentro do que é oferecido pelo BBB, mas sob uma perspectiva que entendo muito bem. Ao invés de falar sobre o ganhador, falarei do primeiro eliminado da 11ª edição... Ou melhor, da eliminada.
É bem verdade que quase não assisto televisão, tendo contato apenas com alguns tele-jornais, cenas soltas da novela das 21h e, vira e mexe, após uma noite em claro, um pouco da cara esticada da Ana Maria Braga (gosto de sua apresentação), fora, é claro, minha amada série "Law & Order: Special Victims Unit". O fato é que sempre que o Big Brother volta, involuntariamente acabo o acompanhando. Luto contra comentários no Twitter e sempre fico com uma certa ressaca moral depois de perder preciosos minutos do meu dia lendo as piadas ácidas do blog "Te Dou Um Dado?"; Não, não tenho vergonha em admitir que gosto do programa. O que gera essa incontrolável ânsia por não assistí-lo é a incapacidade que observo nas pessoas em julgar o caráter dos participantes. Nunca concordei com nenhuma das premiações e em onze edições, digo que, ao meu ver, poucas peças raras passaram pelo programa, fora toda a manipulação que existe em torno da votação, edição e pseudo-favoritismo. Não confio, mas acabo cedendo. 
O que me chamou para essa edição foi uma novidade que durou pouco, mas acredito que ainda vá repercutir na mídia por um bom tempo. Depois da vexatória participação do último núcleo gay do programa na edição passada - Sérgio, fútil, desmiolado, alienado e apelativo, e Dicesar, completamente perdido nas próprias contradições - pensei que a Globo não pudesse versatilizar ainda mais a variedade de tipos e orientações sexuais dos jogadores. Me enganei. Em 2011, a casa recebeu uma transexual.
Em um país retrógrado, conservador e machista, isso obviamente não passaria em branco. Chamaram a moça de travesti, traveco, viado, bichona, fizeram piadas sobre a vaginoplastia (Google it, loser), tudo o que era de se esperar... Não vou dissecar as diferenças entre cada orientação existente pois espero, sinceramente, que as pessoas já estejam entendendo melhor que travesti, drag-queen, transexual, homossexual e bissexual NÃO SÃO A MESMA COISA E NÃO SE TOCAM EM MOMENTO ALGUM, mas vou falar sobre a Ariadna que pouco assisti.
Insegura em revelar sua condição, a jovem se esquivou das desconfianças, inventou desculpas e até assumiu que era prostituta para não ter que falar sobre seu passado em masculino... Pouco me importa se ela é ou não prostituta, não tenho esse tipo de preconceito e muito menos acho que seja uma profissão que mereça tantas retaliações. O que me incomodou foi perceber no olhar dela um brilho familiar, algo parecido com medo, quando as suspeitas se agravaram. 
Hoje ela foi eliminada com 49% dos votos, dividindo os outros 51% com os dois insossos participantes que enfrentaram com ela o mesmo "paredão". Fica difícil dizer que o preconceito não influenciou, mas também é complicado dizer que ele fez tanta diferença; Foi um paredão politicamente incorreto: uma negra (CHATA PRA CARALHO), um negro gay (que não convence com aquele chapeuzinho panamá escroto) e uma transexual também negra. 
Se Ariadna foi julgada por ter sido homem no passado ou por não ter falado de primeira sobre sua realidade, nunca saberemos, mas que sua participação foi fraca, isso não podemos negar. Talvez por ter tentado se proteger, talvez por ter tido apenas uma semana para se mostrar, talvez por ser mais uma figura chata dentre as tantas dessa edição... Não sei, mas sinto uma queda forte para o preconceito. Não podemos, é claro, entregar o favoritismo à ela unica e exclusivamente por sua história de vida. Ou podemos? Devemos?
O grande erro em relação ao Big Brother é encará-lo como programa beneficente e de cunho instrutivo. Não, não é o bonzinho que merece o prêmio final segundo os preceitos originais do programa (com formato original americano). A idéia é premiar o melhor jogador, aquele que conseguir contornar todos os paredões, colocando a maior parte dos jogadores a seu lado, por entre seus dedos, como cartas úteis em um jogo de baralho. 
No Brasil, onde a maior parte da população é pobre, o favoritismo ficou por anos em cima dos jogadores de origem e vida mais humilde, caracterizando a classe dos "pobrinhos do BBB" ou "coitadinhos do BBB". O espírito do "Bolsa Família" dominou o programa por anos até que a Globo reformulou os critérios de seleção e parou com os sorteios de participantes. Começaram a escolher a dedo quem entraria para o jogo, misturando ao máximo pessoas com diferentes estilos e histórias de vida, e foi aí que a coisa ficou interessante. O primeiro vencedor após tal mudança entrar em vigor comprova essa teoria. Diego Alemão nada tinha de pobre coitado e graças a uma perseguição insana dentro da casa, acabou caindo nas graças do público e abocanhou a bolada final. A coisa ficou mais justa pois, afinal de contas, classe social não denomina inteligência e caráter, portanto, nunca deveria ter influenciado o voto popular. 
Tendo essa análise em mente, o que fazer com Ariadna? Premiá-la com a permanência no jogo por ter feito uma revolução pessoal violenta (que muitos não aguentariam fazer) ou eliminá-la por não ter jogado direito? Eu queria que ela tivesse ficado, e é aqui que começarei a falar sobre o tal brilho familiar no olhar.
Sempre alvo de críticas por seus discursos forçados e brincadeiras sem graça, Pedro Bial, finalmente, soltou o verbo em cima dos participantes logo na primeira semana. Duro e sincero, desconsertou a todos quando deixou claro que ninguém estava engolindo a atuação coletiva dos participantes onde todos fingiam se preocupar com o que a família pensaria de suas respectivas atitudes no decorrer do jogo; Talvez a que mais tenha se identificado com a crítica tenha sido a Michelly, aquela cheia de dramas para dar uns amassos na frente das trocentas câmeras, se protegendo atrás da opinião do pai quando, na vida real, já rebolou semi-nua em teste de propaganda de Guaraná; Bial falou bem uma verdade: ninguém gosta de "santo do pau oco".
Quando chegou a hora de eliminar Ariadna, Bial usou como parte do discurso, sabiamente e em descarada comparação, a personagem Ariel, do filme A Pequena Sereia, dos Estúdios Disney.
Quem conhece o conto original de Hans Christian Andersen entendeu a menção, quem assistiu apenas ao desenho clássico de 1989, bem, ficou na superfície do oceano.
A personagem do conto, sem nome originalmente, comeu o pão que o diabo amassou para alcançar um de seus sonhos: o amor do príncipe. Como assim "um dos sonhos"? A sereiazinha não queria ser humana apenas para dar uma surra de bacalhau no gostosão de calças justas? Não, meus amores. É verdade que rolou um "amor de pica" platônico, mas além de ter funcionado apenas como incentivo para que ela colocasse seu plano humano em ação, o príncipe não era seu único sonho. A sereiazinha queria também ser imortal.
Nunca conseguiu o amor do príncipe, mas por aceitar se sacrificar, transformando-se em espuma do mar, já que sua opção, caso o príncipe não a quisesse, era matá-lo, a sereia conseguiu a benevolência das ninfas do oceano e atingiu seu sonho máximo; Tornou-se imortal, apesar de ter abandonado o estado material de ser.
O conto "A Pequena Sereia" é um espelho direto da frustração de seu autor, bissexual mal-resolvido e sempre rejeitado (que inclusive liberou sua fantasia particular sobre um jovem conhecido na descrição do príncipe da fábula), mestre em contos de fada cheios de ideologia triste e valiosa. 
Por falar do abandono do amor próprio e da segurança pessoal em prol da conquista por um sonho maior e mais forte que a própria vontade, "A Pequena Sereia" é constantemente comparado a diversas histórias de transformações no período da puberdade, onde a sexualidade é descoberta (mas nem sempre é concretizada). 
O jovem que vai contra tudo e contra todos na busca por sua verdade nada mais é, inegavelmente, do que uma sereia que busca o imaterial. Claro, não precisamos limitar a personagens à históricos sobre a complicada descoberta da sexualidade em meio a uma sociedade machista, mas não devemos negar que, em comparação, são histórias que se aproximam bastante.
Assim como a sereiazinha de Andersen e a Ariel de Walt Disney, Ariadna renasceu para viver um sonho maior, e só Deus e ela mesma podem dizer o quão sofrido foi esse processo. 
É muito fácil fazer piadas sobre pirocas, até porque todo mundo curte uma piroca, seja heterossexual, homossexual ou whatever-they-supposed-to-be. Vão negar? Olha a hipocrisia; Desenhos em banheiros, bancos de ônibus, piadas infantis, bobas, meninos que se masturbam em grupo, comparam tamanho e forma, meninas que dizem que tamanho não faz diferença mas a primeira coisa que comentam com as amigas sobre o novo parceiro é justamente o tamanho da arma de fogo... Enfim, o pênis é um ícone mundial que quase sempre tem fins muito escrotos. 
Deve ser uma agonia indescritível nascer com um corpo que não reconhece como seu, tendo que lidar com o preconceito das pessoas que o cercam, com a estranheza de uma sociedade fraca e bitolada no que diz respeito a condição sexual das pessoas... Viver em um mundo onde o pau vale mais do que o homem, para um transexual deve ser o que para um evangélico seria o inferno, sem a opção de evitar arder nele.
Ela foi corajosa, apostou suas fichas, caminhou sobre mil facas e desistiu de seu príncipe encantado para realizar o que lhe era mais precioso, seu ideal mais alto. De homem, passou a mulher, sofrendo perdas irreparáveis, assim como a sereia que abriu mão de sua vida em troca do que lhe era mais importante; Ás vezes é perdendo que mais se ganha... Perdas e danos, lembram-se?


Já que o programa é tão popular, afirmo com certeza e pesar em meu coração que o Brasil teve a grande chance de lidar com seus fantasmas para crescer um pouco, revendo seus conceitos e valores, mas não aproveitou. Quem perdeu não foi a Ariadna, e sim vocês, seus adoradores de piroca.

OBS: não, eu não me identifiquei com ela porque sonho em ser mulher, muito pelo contrário até; A-do-ro ter um pau, essa coisa que todo mundo tanto endeusa. Me identifiquei porque me encontrei no conto da sereiazinha, e ele se espelha e muito na grande transformação que sofri em 2005. Qualquer dia desses eu escreverei o texto sobre esse processo e sobre o filme da Disney (que tenho por meu favorito).

SEM MAIS.

4 comentários:

  1. Rafael Mendes Nogueira19 de janeiro de 2011 06:27

    Adorei o texto querido...

    Leve, rápido e questionador...

    Eu sou um grande fã de Big Brother sem medo de sofrer retaliações por conta disso... O programa nos dá respostas importantes sobre os mais variados temas, respostas de um pensamento coletivo, ou maciço... fora que é uma companhia ótima para solitários...

    Muito se foi zoado em cima da Ariadna (sim amigo, é Ariadna, e não Ariadne...rs), mas poucos foram o que tiveram a humanidade de se pôr nas situações passadas por esta... eu não tenho como acreditar que não se pôr no lugar dela seja falta de informação, cultura, ignorância... mas sim falta de sensibilidade, e e entendo muito bem quando vc diz no texto brilho familiar no olhar... não é possível olhar o olhar da Ariadna e não ver sofrimento, não ver medo, mágoa... é triste não conseguir ver tal coisa, que para quem já passou ou passa por situações discriminatórias, é tão básico, tão cotidiano, tão compreensível...

    O que me entristece é que quando é oferecido ao senso comum o novo, o diferente, o à se conhecer... este o repele querendo que essa presença não os atinja, como se violência fosse...

    O Brasil mais uma vez deu um viva a desinformação e ao pré-conceito...

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  2. Agradeço as críticas (elogios, ok, hahaha), gente. E corrigi o nome dela, Rafa. Ela conseguiu tanta coisa bacana, logo o nome tinha que ser escroto? Nada contra Ariadna, rola até uma mitologia grega na história... Mas Ariadna Thalia? THALIA? Maria do Bairro yo sooooooooooooooooy, arriba arriba che! Cruzes.

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