sábado, 26 de fevereiro de 2011

Como nossos pais.

Sabem o que mais me atormenta ao escrever um texto aqui? O tamanho do universo. Sempre que escolho um assunto delicado para dissertar sobre, ele torna-se idéia fixa que só é superada ao ser enterrada e exumada (na maior parte das vezes, reescrevo meus textos algumas vezes até acertar o tom), o grande problema é que esse tipo de tema jamais têm tamanho mensurável; São, por excelência, um universo à parte, imenso.
Quando escrevi sobre a Ariadna (a participante eliminada na primeira semana da 11ª edição do Big Brother Brasil), levei, pelo menos, umas duas horas soltando o verbo e outras duas horas eliminando erros, deletando parágrafos e censurando minha tão afiada e politicamente incorreta língua. No final, fiquei feliz com o resultado, mas ao voltar à ele semanas depois, me segurei para não editá-lo mais uma vez; continua cheio de erros.
Engraçado... De repente me pego embromando o início desse texto porque sei que o assunto vai mexer comigo - mexe desde que me entendo por gente, na verdade. Poderosa mente humana, inoperante mente minha.
Chega de enriquecer a introdução à fim de perder o foco, ganhando espaço em outros assuntos,  evitando o tal tema que me veio à cabeça instantes atrás e que só sossegará quando for desossado. 
Pais. Coloquem-se por detrás de meus olhos e enxerguem o tamanho do problema à frente. Assusta. Falar da relação entre pais e filhos pode parecer coisa pouca, conversa corriqueira, mas quando paro para pensar no que de fato significa essa relação, bem, aquele frio desconfortável percorre minha espinha.
Cada relação é única, todas acabam sendo diferentes - ainda que se assemelhem - e jamais serão equivalentes; cada um com seus respectivos pais e mães, ou até mesmo dois pais e duas mães, ou avós, ou qualquer figura que exerça a tarefa de se responsabilizar pela formação de um novo ser-humano; pois é esta a verdadeira razão dos pais, criar um ser-humano.
É muito bonitinho dizer que eles são aqueles que nos darão amor e carinho, acalentando as noites frias, tratando nossos problemas com especial atenção. Doce ilusão. Por meio de um orgasmo essas pessoas começaram o processo que nos trouxe a esse mundo louco, e nem sempre acham que o resultado valeu o gozo.
Acho que ninguém nunca têm noção do que é ter um filho até que a merda acontece - mesmo quando o rebento é planejado e desejado; nasceu! Agora você é responsável por uma pessoa que vai conviver com todas as outras, podendo esta ser um adendo positivo à sociedade ou apenas mais um problema a ser visto como um grande preço pago por segundos de prazer.
É clichê culpar os pais pelos problemas das pessoas É. O argumento perde força ante à variedade de questões fortes trazidas pela sociedade moderna. Apesar de clichê e de não ser a razão absoluta, ainda é, sim, uma grande verdade. Muitos de nós temos problemas que nos acompanharão pelo resto da vida graças às cagadas dessas duas pessoas. E os dois não precisam ser presentes, podem estragar nosso dia à distancia,  simplesmente não estando lá para nos amparar. Eles sempre são dois extremos; heróis e vilões, vítimas e algozes. Não importa o tipo de relação que se tenha com eles, de um jeito ou de outro, eles têm o poder de nos trazer infelicidade.
Em que momento da vida nos tornamos uma sequência de seus erros e acertos? Involuntariamente, muitos de nós acabamos nos tornando uma versão modernizada de nossos exclusivos responsáveis. Tanto sofremos por causa deles, tanto sentimos na pele seus devaneios e desrespeitos, lidamos com a invasão e evasão dessas majestades impiedosas para que, no final, nos tornemos seus aprendizes e, um dia, mestres na arte de danificar o mundo. Nem todo filho repete os erros dos pais, assim como nem todos os pais aprendem com os filhos, aqui tudo é muito solto, relativo.
Ser pai ou mãe trata-se também de uma ingrata tarefa, pois... Vamos trocar de ponto de vista: e quando o sei filho se torna um problema? E quando é ele quem lhe deixa marcas profundas, mesmo quando você faz de tudo para que ele seja feliz? Como lidar com um monstro criado por você mesmo? Pânico.
Ter colocado aquela pessoa no mundo não lhe impede de achá-la chata, incômoda, inconveniente. É tão diferente de você, tira seu sono, não reconhece seu esforço e ainda pesa no seu salário, fora que nem sempre retorna o investimento afetivo que lhe foi prestado. Se existem pais que erram, por outro lado existem filhos que foram um erro; aqui, maçãs podem nascer podres.
Você percebe que aquilo ali não está dando certo, tenta remediar, tenta resolver, faz o possível para amenizar o fedor, mas não adianta, você deixou um merda solto na rua, e mais cedo ou mais tarde alguém vai acabar pisando nele e vai perder a compostura com tamanha falta de educação; um filho ruim é um cocô que você deixou para alguém pisar, e não faz diferença se você tinha a melhor das intenções... Bacana, não acha? Esquece a sacolinha, e como ninguém aqui incita homicídio... Corre, sai de perto! Finge que não foi sua culpa. Vão te culpar, não tem jeito.
O amor incondicional, as datas capitalistas comemorativas, as novelas, os romances, o cinema, o lado lúdico, tudo isso enfeita essa tão frágil relação para que ela não sucumba ao andar cada vez mais acelerado da sociedade. A fortalecemos como podemos para que permaneça pois, apesar de tantos contras, ainda é essencial, a clave da existência humana; Mesmo que o próprio conceito de "família" tenha mudado ao longo das últimas décadas, essa estrutura ainda é muito importante.
Você deve estar imaginando que tenho uma relação péssima com meus pais, certo? Matando sua curiosidade: não, nossa relação beira o saudável. Claro que vez ou outra tenho vontade de sufocar os dois lentamente enquanto dormem, mas quase todo o tempo luto para me apegar mais aos seus acertos do que aos seus erros. Por sorte, nasci de um casal que não só desejava um filho como também tinha uma estrutura aceitável para que tal vontade não fosse uma fantasia insana.
Sonho em ser pai, pois não me assusto com o desafio de amar incondicionalmente uma criatura, nem com a responsabilidade de formar seu caráter e de lhe calçar as ruas da vida. Não gostaria de repetir a ausência de meu pai ou a falta de pulso de minha mãe, mas pelas partidas de Mario Kart com ele e as madrugadas de conversa com ela, acho que posso buscar referências no que me foi oferecido para que a experiência não seja tão cega.
Conclusão? Não há nenhuma. Adotivos ou biológicos, pais e filhos se completam, se atormentam, se amam e se odeiam, e não há Deus no céu ou pessoa na Terra que tenha conseguido mudar essa realidade (ainda); passionais, imaturos, inflexíveis, narcizistas, controladores, ausentes, super-protetores, infelizes, efusivos, saudáveis, amáveis, homossexuais, brincalhões, hérois, bandidos... Pais, e filhos, meus pais, seus pais, nossos filhos. Tudo junto e misturado, muita doença, muita felicidade e assim vamos levando.



terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Que Cisne eu sou?

Fica difícil escrever uma crítica quando já se leu uma outra muito boa sobre o alvo que pretende-se atacar, mas como confio bastante na minha capacidade de expressar o que penso, vou arriscar; Artur Xexéo conseguiu sintetizar todo o meu incômodo ao assistir "Cisne Negro" (Black Swan), mas ainda assim não disse tudo o que eu diria sobre o filme. 
Se você pretende assistir ao filme, aconselho que pare por aqui, pois não vou tomar nenhum cuidado para não entregar o desfecho da odisséia vivida pela personagem de Natalie Portman no longa; Não curto ir direto ao ponto sobre assuntos que gosto, por isso não quero deixar nada no ar.



A premissa do filme é bastante simples, porém esconde por baixo das cenas angustiantes uma certa ideologia interessante; Não é apenas um filme sobre o surto psicótico de uma bailarina pressionada pela mãe e pelo próprio ego para atingir a perfeição ante ao papel de sua vida, mas também fala do despreparo emocional de uma jovem reclusa a um universo limitado, rígido e extremamente infantilizado, tornando-a frágil e suscetível a pressão exercida pela própria carreira.
Nina Saywer (Portman) é uma dedicada bailarina que, sem muita explicação (a não ser pela crença do diretor de sua compania de dança - e atração sexual do mesmo), conquista o papel de Rainha Cisne numa releitura moderna do clássico ballet "O Lago dos Cisnes" (composição do maravilhoso Tchaikovsky); A Rainha Cisne se divide em dois personagens: o cisne branco, delicado e encantador, o lado bom, e o cisne negro, a irmã invejosa, agressiva e sedutora, o lado mal. Ambas lutam pelo amor de um príncipe, este que poderia quebrar a magia criada por um feiticeiro malvado que prende a jovem ao corpo de cisne. Claro que essa história não tem final feliz, tampouco o filme.
Ela tinha a perfeição e a delicadeza do cisne branco, mas faltava-lhe o impacto do cisne negro. Criada pela mãe (uma bailarina frustrada por ter largado sua carreira ainda jovem por ter engravidadado), Nina começa sua alegoria em direção à loucura onde pouco a pouco floresce em seu surto, culminando na belíssima cena onde seu cisne negro finalmente assume o controle total (com direito a asas e penas, jogo de sombras e rodopios elegantes).
Sua descida rumo à escuridão foi muito bem construída: no início do filme sua fraqueza é perceptível, mas são os demais elementos que entram na história que completam a receita para o desastre; A entrada de uma nova bailarina em sua compania traz uma rival iminente e uma fantasia homossexual, soma que, logicamente, não faz muito bem a protagonista. Pressão, mãe frustrada, abusos descarados por parte de seu diretor, the new girl in town... Nina surtou. E surtou muito bem.
Os mais céticos descreditam a atuação de Natalie Portman argumentando que ela só conseguiu passar fragilidade, e que nem mesmo os dois anos que dedicou ao ballet para encarnar o cisne descontrolado renderiam-lhe algum verdadeiro mérito. Discordo. De fato, nada entendo de dança (e muito menos de ballet) para apontar onde ela não convenceu, mas também não acho absurdo o uso de dublê em cenas afastadas e foco no rosto nas cenas de perto; Trata-se de uma atriz e não de uma bailarina clássica, logo, sua maior obrigação era fazer uma personagem verossimil - ainda que a natureza de Nina seja única demais para que ela fosse apenas uma jovem padrão.
A personagem é exatamente o que vemos: uma menininha fraca, fingidae despreparada. Nada mais, nada menos. Portman não tinha como emprestar maior profundidade a uma personalidade tão limitada - até porque este é o mote do filme. Como cisne psicopata, ela cumpriu seu papel, e para quem não era bailarina até então, conseguiu enganar muito bem o espectador comum.



O que me chamou atenção no filme foram os extremos retratados (e percebidos sob ótica da protagonista); Ela como o cisne branco, os demais personagens como os cisnes negros - de seu diretor com a libido exagerada à sua antecessora (Winona Ryder), frustrada por ser obrigada a se aposentar pela idade, passando pela rival criada por seus delírios eróticos, isso sem falar da mãe que, de tão tensa, garantiu uma boa leva de cenas constrangedoras.
Com todos os personagens nas beiradas, sempre em extremos opostos, o filme não trouxe um personagem empático; Ficou difícil para o espectador se identificar com a mocinha e com os supostos vilões, pois todos estavam na mesma sintonia. Bondade demais, pureza demais, luxúria demais, inveja, loucura, frustração... Intensidade. Todos 80, nenhum 8.
Essa jogada permite que o filme seja assistido sem muita torcida por nenhum dos lados; Você quer que Nina alcance seu objetivo, mas pouco se importa se ela vai se destruir por isso e até mesmo se vai arrastar mais gente com ela. O filme pede que você clame por sangue e cetim, e o final permite que você se identifique com ele da forma que achar melhor - lhe dá liberdade de interpretação.
A fotografia e palheta de cores dos cenários, bem como iluminação e foco/ângulo de câmera, lembram muito o estilo de Stanley Kubrick (outro dos meus queridinhos), o que rende ao filme uma atmosfera... Kubrick.



O que complicou o filme? O desenrolar. Nunca fica claro o que é fantasia e o que é real, e não há suspense nenhum em revelar a natureza dos acontecimentos. Logo após uma cena absurda, vem a explicação: mais uma alucinação. Isso se repete do início ao fim da história, que por seu caminhar acabou não surpreendendo ninguém: era de se esperar que a protagonista morresse com seu cisne; Não chegou a ficar previsível, é verdade, mas tal estrutura tornou muitas das cenas... Brochantes.
Quando você pensa que ela finalmente tomou as rédeas de sua loucura e assumiu suas consequências, não, era tudo imaginação. Ela não matou ninguém, não transou com sua suposta rival, não causou o desfiguramento de sua antecessora... Espera, não causou mesmo? Isso acaba não ficando claro, mas pelo resto do filme pode-se calcular que, de fato, foi apenas mais uma visão aterradora de sua cabecinha perturbada.
Outro problema é o gênero. Não é terror, mas tem veias de. Não é suspense, mas se firma nele. Não é drama, mas pula de cabeça nas possibilidades dele. Romance? Narcizismo puro e descarado. Como o Xexéo disse, atiraram para todos os lados e não atingiram muita coisa; Filmes sem gênero definido se arriscam mais, portanto passam por maiores provações e expectativas, o que quase sempre os prejudica.
Creio que nada mais possa ser acrescentado. Aproveitei cada minuto que passei no cinema, me emocionei com algumas cenas e decidi que vou me casar com a Natalie Portman, além de ter ficado com a música tema do ballet na cabeça por alguns dias.
Verdade seja dita, doa a quem doer: não é um filme genial e muito menos trata-se do melhor da última safra. É apenas um pingo de esperança em um deserto de produções que muito prometeram e pouco cumpriram. Fazendo uma associação porca (porque eu curto uma descida de nível), "Cisne Negro" foi um pum inodoro que acabou fazendo muito barulho.


PS: e aqui está o link para a crítica do grande Xexéo; Sua coluna dominical na revista O Globo é para obrigatória para mim.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Enquanto eu não durmo.

Sei que o Whatever Hall anda meio largado, mas a culpa não é somente da minha falta de pauta, tenho desenhado mais do que qualquer outra coisa. Quem sabe mais a frente, quando meus desenhos evoluírem, eu não publico algum por aqui?
Vira e mexe abordo algum problema emocional ou os efeitos causados por eles em nossas vidas, sempre analisando a coisa pelo meu ponto de vista, de acordo não só com minha opinião, mas também com minhas próprias experiências. Em quase dois anos de blog, acompanhei a evolução da minha escrita através dos desabafos constantes que publiquei por aqui... Uma vez eu disse que o ato de escrever nada mais é do que colocar para fora o que se tem dentro... Acertei em cheio.
Já falei de traumas, limites, ataquei como crítico de cinema (e não convenci, mas não desistirei), dei uma de psicólogo (fajuto), arrisquei tudo que me era semelhante, mas acredito nunca ter mencionado um dos meus maiores problemas, problema esse que permite minhas publicações, desenhos e mais geniais idéias.
A insônia é um mal moderno, vem evoluindo e cada vez mais atacando os mais novos. O que para alguns é novidade, para outros é costume. Posso dizer, com dúvidas (porque minha memória é seletiva - esquece TUDO), que adquiri o hábito de não ter o sono como companheiro em 2005. Tudo aconteceu na minha vida em 2005, é incrível.
Já tive rotinas diurnas e noturnas, sendo feliz em cada uma delas, mas de uns dois anos para cá perdi completamente a regulagem; Se em uma semana durmo durante o dia e fico acordado durante a noite, na semana seguinte faço o contrário, isso quando não vario a rotina do sono de um dia para o outro. É sempre uma surpresa. Por essas e outras, o sono transformou-se no meu maior sabotador e pior inimigo.
Quando inverto os horários, entro em parafusos, por vezes decorados com surtos criativos, por vezes adornados por uma leve psicose recorrente sobre meu destino nessa vida. Os temas sempre são os mesmos, minhas angústias preferidas, minhas dores de estimação. 
Por essas e outras fico cansado quando não deveria e animado quando deveria estar dormindo. Meu timing se desencontra do timing dos meus amigos e a minha fama de atrasado se justifica; Quando estou com uma rotina de sono sou pontual, caso contrário conte meia hora, quarenta minutos, e aí sim vá me encontrar, senão vai mofar me esperando.
Apesar de todo esse nó que o sono traz ao meu dia-a-dia, sou muito bom de cama; Durmo maravilhosamente bem, como um neném, sono pesado, quieto e revigorante. Minha insônia é torta, irregular e temperamental. A única coisa que me atrapalha enquanto durmo são meus sonhos que, de tão realistas, servem como uma extensão do meu dia. Dependendo do sonho, acordo cansado, como se não tivesse dormido nem por uma hora completa - e leiam esse "dependendo do sonho" como TODO e QUALQUER sonho. 
Minha mente me obriga a ir a lugares que não quero, vivencio experiências das quais jamais pretendo experimentar, fora as fantasias mais loucas e desvairadas. Se o sonho for um pesadelo então, HÁ, não queira me encontrar depois de um pesadelo. Meus piores dias foram após uma noite de pesadelos.
O fato é que, apesar de necessário, se dependesse da minha vontade eu não dormiria nunca. Gosto do dia e amo a noite, não sei abdicar de nenhum dos dois, tenho afazeres preferidos para cada horário; Escrever é de noite, no máximo pela manhã após uma madrugada em claro. Desenhar é durante o dia, à luz natural - ás vezes de madrugada, mas é raro (embora funcione bem).
Só quem tem esse problema com o sono e está ciente dele vai me entender, porque até agora esse texto é, de longe, o menos pretencioso e ideológico desse blog; Perdi o Domingo, fui dormir ás 9h da manhã e acordei ás 3h30 de segunda-feira (a.k.a hoje). Estou ligado nos 300.000 volts, louco para fazer alguma coisa. Essas linhas nada mais são do que um simples atalho para desacelerar um pouco; Eis meu segundo problema: velocidade. Ser lento e ser rápido, dormir muito dormir pouco. É um inferno viver na minha mente.