terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Que Cisne eu sou?

Fica difícil escrever uma crítica quando já se leu uma outra muito boa sobre o alvo que pretende-se atacar, mas como confio bastante na minha capacidade de expressar o que penso, vou arriscar; Artur Xexéo conseguiu sintetizar todo o meu incômodo ao assistir "Cisne Negro" (Black Swan), mas ainda assim não disse tudo o que eu diria sobre o filme. 
Se você pretende assistir ao filme, aconselho que pare por aqui, pois não vou tomar nenhum cuidado para não entregar o desfecho da odisséia vivida pela personagem de Natalie Portman no longa; Não curto ir direto ao ponto sobre assuntos que gosto, por isso não quero deixar nada no ar.



A premissa do filme é bastante simples, porém esconde por baixo das cenas angustiantes uma certa ideologia interessante; Não é apenas um filme sobre o surto psicótico de uma bailarina pressionada pela mãe e pelo próprio ego para atingir a perfeição ante ao papel de sua vida, mas também fala do despreparo emocional de uma jovem reclusa a um universo limitado, rígido e extremamente infantilizado, tornando-a frágil e suscetível a pressão exercida pela própria carreira.
Nina Saywer (Portman) é uma dedicada bailarina que, sem muita explicação (a não ser pela crença do diretor de sua compania de dança - e atração sexual do mesmo), conquista o papel de Rainha Cisne numa releitura moderna do clássico ballet "O Lago dos Cisnes" (composição do maravilhoso Tchaikovsky); A Rainha Cisne se divide em dois personagens: o cisne branco, delicado e encantador, o lado bom, e o cisne negro, a irmã invejosa, agressiva e sedutora, o lado mal. Ambas lutam pelo amor de um príncipe, este que poderia quebrar a magia criada por um feiticeiro malvado que prende a jovem ao corpo de cisne. Claro que essa história não tem final feliz, tampouco o filme.
Ela tinha a perfeição e a delicadeza do cisne branco, mas faltava-lhe o impacto do cisne negro. Criada pela mãe (uma bailarina frustrada por ter largado sua carreira ainda jovem por ter engravidadado), Nina começa sua alegoria em direção à loucura onde pouco a pouco floresce em seu surto, culminando na belíssima cena onde seu cisne negro finalmente assume o controle total (com direito a asas e penas, jogo de sombras e rodopios elegantes).
Sua descida rumo à escuridão foi muito bem construída: no início do filme sua fraqueza é perceptível, mas são os demais elementos que entram na história que completam a receita para o desastre; A entrada de uma nova bailarina em sua compania traz uma rival iminente e uma fantasia homossexual, soma que, logicamente, não faz muito bem a protagonista. Pressão, mãe frustrada, abusos descarados por parte de seu diretor, the new girl in town... Nina surtou. E surtou muito bem.
Os mais céticos descreditam a atuação de Natalie Portman argumentando que ela só conseguiu passar fragilidade, e que nem mesmo os dois anos que dedicou ao ballet para encarnar o cisne descontrolado renderiam-lhe algum verdadeiro mérito. Discordo. De fato, nada entendo de dança (e muito menos de ballet) para apontar onde ela não convenceu, mas também não acho absurdo o uso de dublê em cenas afastadas e foco no rosto nas cenas de perto; Trata-se de uma atriz e não de uma bailarina clássica, logo, sua maior obrigação era fazer uma personagem verossimil - ainda que a natureza de Nina seja única demais para que ela fosse apenas uma jovem padrão.
A personagem é exatamente o que vemos: uma menininha fraca, fingidae despreparada. Nada mais, nada menos. Portman não tinha como emprestar maior profundidade a uma personalidade tão limitada - até porque este é o mote do filme. Como cisne psicopata, ela cumpriu seu papel, e para quem não era bailarina até então, conseguiu enganar muito bem o espectador comum.



O que me chamou atenção no filme foram os extremos retratados (e percebidos sob ótica da protagonista); Ela como o cisne branco, os demais personagens como os cisnes negros - de seu diretor com a libido exagerada à sua antecessora (Winona Ryder), frustrada por ser obrigada a se aposentar pela idade, passando pela rival criada por seus delírios eróticos, isso sem falar da mãe que, de tão tensa, garantiu uma boa leva de cenas constrangedoras.
Com todos os personagens nas beiradas, sempre em extremos opostos, o filme não trouxe um personagem empático; Ficou difícil para o espectador se identificar com a mocinha e com os supostos vilões, pois todos estavam na mesma sintonia. Bondade demais, pureza demais, luxúria demais, inveja, loucura, frustração... Intensidade. Todos 80, nenhum 8.
Essa jogada permite que o filme seja assistido sem muita torcida por nenhum dos lados; Você quer que Nina alcance seu objetivo, mas pouco se importa se ela vai se destruir por isso e até mesmo se vai arrastar mais gente com ela. O filme pede que você clame por sangue e cetim, e o final permite que você se identifique com ele da forma que achar melhor - lhe dá liberdade de interpretação.
A fotografia e palheta de cores dos cenários, bem como iluminação e foco/ângulo de câmera, lembram muito o estilo de Stanley Kubrick (outro dos meus queridinhos), o que rende ao filme uma atmosfera... Kubrick.



O que complicou o filme? O desenrolar. Nunca fica claro o que é fantasia e o que é real, e não há suspense nenhum em revelar a natureza dos acontecimentos. Logo após uma cena absurda, vem a explicação: mais uma alucinação. Isso se repete do início ao fim da história, que por seu caminhar acabou não surpreendendo ninguém: era de se esperar que a protagonista morresse com seu cisne; Não chegou a ficar previsível, é verdade, mas tal estrutura tornou muitas das cenas... Brochantes.
Quando você pensa que ela finalmente tomou as rédeas de sua loucura e assumiu suas consequências, não, era tudo imaginação. Ela não matou ninguém, não transou com sua suposta rival, não causou o desfiguramento de sua antecessora... Espera, não causou mesmo? Isso acaba não ficando claro, mas pelo resto do filme pode-se calcular que, de fato, foi apenas mais uma visão aterradora de sua cabecinha perturbada.
Outro problema é o gênero. Não é terror, mas tem veias de. Não é suspense, mas se firma nele. Não é drama, mas pula de cabeça nas possibilidades dele. Romance? Narcizismo puro e descarado. Como o Xexéo disse, atiraram para todos os lados e não atingiram muita coisa; Filmes sem gênero definido se arriscam mais, portanto passam por maiores provações e expectativas, o que quase sempre os prejudica.
Creio que nada mais possa ser acrescentado. Aproveitei cada minuto que passei no cinema, me emocionei com algumas cenas e decidi que vou me casar com a Natalie Portman, além de ter ficado com a música tema do ballet na cabeça por alguns dias.
Verdade seja dita, doa a quem doer: não é um filme genial e muito menos trata-se do melhor da última safra. É apenas um pingo de esperança em um deserto de produções que muito prometeram e pouco cumpriram. Fazendo uma associação porca (porque eu curto uma descida de nível), "Cisne Negro" foi um pum inodoro que acabou fazendo muito barulho.


PS: e aqui está o link para a crítica do grande Xexéo; Sua coluna dominical na revista O Globo é para obrigatória para mim.

6 comentários:

  1. Ótima crítica, Gui.
    Como te disse antes, quem sustenta o filme é a Natalie. Não era de se esperar que fosse diferente.
    Discordo do Xexéo nos mesmos pontos que você: dizer que ela não impressiona e que é insosa do início ao fim do filme é no mínimo falta de sensibilidade de um expectador desatento.
    Mesmo na fase do sem graça cisne branco, cheio de limitações e transtornos, ela consegue desempenhar bem o papel.
    Passa toda a angústia e sofrimento de menina frígida e mimada,que luta contra si mesmo para deixar de ser uma pata choca (com o perdão do trocadilho).
    Não acho que o filme se perca no foco. A tensão e aparente confusão instiga e traz o drama da protagonista pra nós mesmos. Is this the real life? Is this just fantasy?
    Cada um luta diariamente contra o cisne negro ou branco e usa o que lhe for mais conveniente.
    Assisti a quase todos os filmes indicados ao oscar e globo de ouro. Não acho que Black Swan seja de fato o melhor entre eles. Consagrar Natalie como melhor atriz é o mínimo mas também o máximo de reconhecimento que o filme pode ter.
    Btw, é o que mais se aproxima ao drama vivido por um Tato pré-adolescente e talvez por isso todo meu encanto por ele. É, talvez.

    ResponderExcluir
  2. Prometo ler a crítica depois! Não resisti e isso é mais um motivo pra vocês se jogarem no meu Cerrado:

    http://finissimo.com.br/everydisconight/2011/02/09/porn-extravaganza-2/

    Vai descendo e procura minhas best's de bléquisuãn.

    obs.: NÃO OUSE PARAR NA MINHA FOTO. Grata.
    obsdois.: tenho certeza que em uma foto você vai parar. De nada.

    ResponderExcluir
  3. Adorei sua crítica ao filme, beibe!
    Óbvio que discordo de pequenas coisas, mas na maioria do tempo, concordei com tudo. E gostei muito também do comentário do Tato...
    Acho que, pra mim, sua análise foi melhor do que a do Xexéu, que eu já havia lido no domingo.

    Enfim, não vi todos os filmes concorrentes ao Oscar, então não posso dizer se Black Swan realmente merece ou não ganhar, mas espero que, pelo menos, a Natalie ganhe...

    E, como tchorra, digo: MELDELS, A CENA DELA E DA MILA É DE MORRER. *.*


    Bêja, querido!

    ResponderExcluir
  4. Muito boa crítica, você se expressa muito bem, parabéns. (Não tenho esse dom.)
    Gostei do filme no geral, fotografia, figurino e principalmente da atuação da Natalie Portman.
    No começo ela estava tão sem graça, mas tão sem graça que dava pra ver o quão bem ela estava atuando, o cisne negro dela também achei muito bom além de estar dançando muito bem para experiência. Adoro Tchaikovsky e voltei a ouvir repetitivamente depois do filme, dei um descanso pra Vivaldi, rs.
    Apesar de eu ter ficado ligado e tenso o filme tdo, o desenrolar é um pouco cansativo o que faz muita gente não gostar, como meu namorado, rs.

    Essa sexta tem três estreias que parecem ser boas, O Discurso do Rei com Colin Firth, Burlesque da Cher e O Ritual que apesar de terror não ser muito meu estilo este parece ser uma produção boa e com verba alta ao contrário da maioria dos filmes de terror e tem como protagonista o maravilhoso Anthony Hopkins.
    Vai ver algum destes?

    Abraços
    Aramis D’Avila

    ResponderExcluir
  5. Vou fazer assim...
    Ver o filme...e volto para comentar.
    Lindo fim de semana,
    Super beijos,
    Regina d`Ávila.
    (olha..achei outro d´Ávila por aqui...kkkkkk)Bjsss

    ResponderExcluir
  6. Gui,
    Ainda não vi o filme..kkk
    Quem sabe neste fim de semana...
    Voltarei.
    Super beijos...
    Regina.

    ResponderExcluir