sábado, 15 de outubro de 2011

O banquete.

Era um processo duro, porém necessário. O casal não se suportava desde o nascimento do príncipe herdeiro, a criança mais bela e bondosa da face da Terra.
O divórcio litigioso acontece quando, além de não querer mais dividir a mesma cama, o casal não concorda com os termos da separação; normalmente a divisão de bens e a guarda de um provável filho.
No caso de Mariska e Eriqüe o problema não eram os bens, era o filho insuportável; mas, ora bolas, não se tratava de um pequeno anjo? Pois sim, este era exatamente o motivo da rusga. Nenhum dos dois queria criar tão prestativo, carinhoso, educado e compreensivo ser. A perfeição era tão incômoda que quase não permitiam que a criança falasse; evitavam o arco-íris que saia de sua boca no lugar das palavras.
Após diversas reuniões com os advogados, o único papel que faltava assinar era o da guarda. A última briga foi muito feia, com direito a tapas e palavrões jamais pronunciados. Horas depois, com ânimos menos exaltados e um escritório de advocacia parcialmente destruído, sentaram-se para discutir reservadamente a questão, obrigando seus impotentes defensores legais a sairem do recinto; seus mandos e desmandos eram garantidos pelo dinheiro que tinham.
Trocaram mais algumas farpas, mas acabaram concluindo que gritar até a morte não resolveria o problema do filho indesejado. Viram-se então obrigados a buscarem juntos por uma solução que agradasse aos dois. Surpreendentemente, não levaram muito tempo para encontrá-la.
Na noite seguinte, reuniram-se os três na mansão que tinha ficado com Mariska na separação; um último jantar em família, por que não?
No belo salão, uma imponente mesa aguardava o trio; era dourada, contrastando bem com o forte cor-de-rosa da toalha de renda e, curiosamente, tinha somente dois pratos. O ambiente era iluminado por um antigo lustre de cristais verdes que, apesar de majestoso, criava apenas uma  gélida penumbra muito suave e agradável. Para alegrar o ambiente, dançarinas russas tinham sido contratadas. Era uma noite de festa, a celebração do acordo verbal assumido pelos dois. No entanto, destoando do cenário, a música que ecoava pela casa era pesada, aguda e desconexa, parecia trilha sonora de um filme de Stanley Kubrick.
A entrada foi uma simples salada de legumes e vegetais cozidos no vapor. Sem saber por que não tinha sido servido, o menino assistiu aos pais comerem sem reclamar-lhes a fome que sentia; jamais os atrapalharia no sagrado momento da refeição.
Limparam delicadamente os lábios úmidos de azeite e vinagre, e vislumbraram uma última vez a horrenda e angelical face do fruto de seu frustrado casamento. Iam comer o próprio filho.
Eriqüe levantou-se devagar e, calmamente, foi para trás da cadeira onde Abel, seu rebento, estava sentado. Acariciou os caixinhos negros da criança que, como se fossem uma alça, serviram para que batesse violentamente sua cabecinha no tampo da mesa.

O volume da música aumentou.

Não morreu de primeira. Começou a gritar e a chorar desesperadamente, assustado com tamanha agressão. Droga, a pancada deveria tê-lo apagado. Pois bem, mais uma vez a sequência; carinho, caixinhos, alça e a violenta pancada no tampo da mesa.

O volume da música aumentou.

Um lindo chafariz de sangue silenciou os gritos histéricos do menino. Ainda não tinha morrido, mas já soluçava e estrebuchava como um porco no abate. Faltava pouco. Que inferno! De novo! Carinho, caixinhos, alça e mais outra violenta pancada no tampo da mesa!

O volume da música aumentou!

Espirros de sangue. Silencio... silencio... Risadas de satisfação. Estava finalmente morto. Deitaram o cadáver de rosto esfacelado numa enorme travessa de louça inglesa e, educadamente, começaram a se servir.
Acharam divertido comer os olhos verdes de Abel, pois, na primeira mordida, estouraram na boca como uvas maduras. Fartaram-se com os braços, o peito, a barriga, as coxas, as panturrilhas, os glúteos e a genitália; e que genitália! Seria um macho viril igual ao pai, com certeza. 
Apesar de toda a candura, surpreenderam-se com o sabor amargo e apimentado do menino; descobriram então que o bem não era açucarado ou enjoativo. 
Se não comiam pés e penas de galinha, não poderiam comer os pés, as mãos e os cabelos do menino também, concordaram.
Após terminarem, entorpecidos por tão rica refeição, abandonaram placidamente o abatedouro nababesco que outrora fora a sala de jantar, dispensaram as dançarinas, apagaram as luzes e foram sentar-se na sala de leitura, lugar preferido de ambos.
Acenderam o mais prazeroso cigarro de suas vidas e relaxaram como se estivessem em transe... Quando deram por si, estavam nus, aos prantos, fazendo amor como nunca tinham feito; violento, brusco, forte... Passional como não poderia ser. Fizeram as pazes.

A música aumentou uma última vez.

Tudo estava na mais perfeita ordem ao amanhecer, não restando um sinal que fosse da comilança da noite anterior. Ao serem questionados por amigos e parentes sobre o destino do filho, respondiam sem pudores que o tinham devorado. Lidaram por muito tempo com as risadas abafadas pela descrença das pessoas. Foi uma história repetida muitas vezes, até que pararam de perguntar. Não viam mais graça nos pais que comeram o filho.


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