domingo, 16 de outubro de 2011

O escritor.

Escreveu vinte e cinco livros, maravilhosos best-sellers... Isto é, se tivessem sido publicados. Temia o julgamento das inevitáveis críticas. De qualquer forma, eram verdadeiras jóias raras; não tinham sido escritos com o propósito único de render uma casa de praia ao seu autor.
Não fez outra coisa na vida se não escrever. Era escritor desde que o primeiro sopro de ar invadiu-lhe os pulmões; antes mesmo do primeiro bilhete aos pais, do primeiro cartão de aniversário ao amigo de infância ou da simples lista de compras do exercício da escola. Um escritor sem ritos de passagem para contar, ponto.
Egoísta em todos os sentidos, não abria seu mundo para ninguém, vivendo marginalmente nas maravilhosas fantasias que criava todos os dias. Assim sendo, foi escrevendo, escrevendo, escr... Quantos mesmo? Vinte e cinco. Como sua idade.
Morava num singelo apartamento que era pobremente decorado, fruto da herança de seus pais. Não precisava se preocupar com dinheiro, já que suas ambições eram pequenas; vivia trancado em casa, saindo apenas para tarefas básicas, como ir ao banco, ao mercado ou a farmácia. Chegou a ter um cão, na esperança de que este o fizesse sair mais vezes, mas no final das contas o cachorro acabou indo parar nas mãos da vizinha.
Sonhava com Alice todos os dias. Há quatro anos era sua vizinha de porta, mas tinham conversado somente uma  vez - justamente quando o cachorro estava prestes a ser abandonado numa rua escura, fria e deserta.
Ela não saia de sua cabeça de jeito nenhum. Não podia ser paixão. Amor? Muito menos. Reservava tais sentimentos para si. Cisma, ou talvez encantamento, mas era mais provável que fosse uma obsessão.
Alice tinha quarenta e seis anos, estava quatro ou vinte e sete quilos acima do peso, e seus cabelos castanhos começavam a ficar grisalhos. Tratava-se de uma caricata figura enfeitada por vestidos floridos, sapatilhas metalizadas e escalafobéticos óculos de gatinha - aqueles pontiagudos nas beiradas.
Foi um choque quando ela se matou. O que a levou a enfiar o secador de cabelos na goela? Morrera sufocada ou eletrocutada? Como raios conseguiu fazer aquilo? Pouco importava, Alice não estava mais lá para atormentá-lo com sua cantoria; só sabia que existia um Sidney Magal no mundo graças a voz esganiçada e pavorosa daquele ser tão peculiar.
Pensou que, talvez, pudesse ter lhe emprestado um de seus livros... mas de que adiantaria? Alice era analfabeta funcional, fato comprovado quando bateu em sua porta pedindo ajuda para escrever um bilhete ao porteiro.
Depois de Alice com o secador atravessado no esôfago, a idéia de suicídio não lhe deixava mais em paz; que inventivo! Nem em seus mais delirantes capítulos descrevera algo tão absurdo. Teria que ser mais criativo se fosse tirar a própria vida, pensou... pensou por dias, entrando inconscientemente numa competição suicida; precisava superar o feito de sua vizinha.
EURECA! De repente, engasgar-se com um eletrodoméstico lhe pareceu banal, vulgar. Comeria todos os seus livros. Deixaria esse mundo levando dentro de si todas as suas fantasias, todas as palavras que conhecia.
Juntou os vinte e cinco e, sentado na poltrona laranja frente à janela, começou a degustação. Quis desistir da idéia nas primeiras dez páginas, pois o papel tinha um péssimo gosto, mas lembrou-se que servia a um propósito maior. Vinte, trinta, sessenta, cento e trinta e cinco, duzentas e quinze... trezentas. Ficou aliviado; morrer no primeiro livro arruinaria tudo.
Mais um livro. Outro livro. E mais outro. No décimo terceiro, estava tonto, sentia fortes dores no estômago e um amargo gosto de sangue; o papel lhe cortara a boca e a garganta.
Ignorando a náusea, começou o décimo quarto livro. Veio então o décimo quinto, o décimo sétimo, o vigésimo segundo... Chegara, finalmente, ao último.
Respirou fundo, admirou uma última vez a vista da janela e, com os olhos marejados, despediu-se da vida. Comeu a primeira, a segunda, a oitava, a trigésima, a nonagésima, a centésima quinta, a centésima trigésima oitava... Sua visão começou a escurecer, como se pequeninas mãos roxas tapassem lentamente seus olhos pelas costas. Centésima quinquagésima sexta, centésima sexagésima quarta... Quando uma deliciosa sensação de liberdade dominou seu coração, já espremido por milhares de páginas, percebeu que sangrava por todos os orifícios.
Na centésima nonagésima nona, não aguentou; entregou sua alma à força para a dama de cor púrpura que lhe tapava os olhos. Morreu incompleto, deixando uma única página para trás; a maldita página que estragou seus planos.
A polícia só foi chamada quando o cheiro já ocupava todo o andar. Virou notícia para todos os possíveis tipos de mídia, alçando fama internacional como "o escritor que devorou sua obra". Extra, extra!
Naquela página frustrada havia apenas uma simples e curta frase, que acabou sendo lida por milhares de pessoas e foi reaproveitada das mais diversas maneiras, tornando-se, inclusive, uma das citações mais usadas naquele ano; encerrou o texto do perfil de muita gente nos sites de relacionamento virtual.

"Vivo para dentro porque 
não aguento a beleza do que está fora."





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