domingo, 12 de fevereiro de 2012

Whitney, Renan e Cássia.

O lado ruim de ser filho único, acreditem, não é a super proteção de uma mãe dominadora ou a ausência de um pai inevitavelmente fanfarrão. A verdade é que a gente fica sem ter com quem dividir certos fardos, e é sobre um deles que vou escrever hoje.
Meus pais separaram-se quando ainda estavam no auge da juventude, aos meus três anos de idade, ou seja, nada mais normal do que tentarem reerguer suas vidas amorosas. 
De um lado, o sr. Luiz Carlos sempre muito discreto em relação as suas namoradas; em 21 anos de separação, me apresentou apenas duas - uma quando eu tinha 4 anos (uma tagarela insuportável que me enfiava biscoitos de polvilho doce goela abaixo para ver se eu me aquietava) e a outra aos meus 21 (outra tagarela, mas dessa eu gostava). Do outro lado, dona Rosana e seus namorados, aos quais fui apresentado sem exceções; todos eram gente boa, mas sabem como é, né? Nunca ninguém está a altura de mamãe.
Dos namorados de Rosana, há um que se destacou; foi o que ficou mais tempo ao lado dela e o que mais se meteu na minha vida (a contragosto de meu pai, devo ressaltar). Não que ele fosse má pessoa, pois não era... Era apenas descompensado (emocionalmente falando) e tinha três filhos. Três filhos, repito; eu, gordo, chato, do contra e deprimido, contra três adolescentes sadios, problemáticos e normais.
Desses três, pela proximidade de idade, Renan, o caçula, foi o que chegou mais perto de se tornar um amigo... o problema é que ele conseguia ser mais pentelho do que eu. Em poucos meses estávamos numa relação de amor e ódio ambígua e subjetiva; num dia curtíamos a companhia um do outro, no outro estávamos quase saindo no tapa.
Uma de nossas homéricas discussões envolveu Cássia Eller e Whitney Houston; ELA É MELHOR QUE ELA, É CLARO! Berrávamos um na cara do outro. Cássia tinha morrido poucos meses antes do carnaval de 2002, quando viajamos todos para uma casa alugada em Cabo Frio (programa de índio, eu sei). A convivência em demasia não fez bem aos nervos de ninguém, mas eu e Renan fomos os primeiros a surtar.

- Renan, olha a voz da Whitney! Pelo amor de Deus...
- Olha a voz da Cássia Eller e as mensagens das músicas dela, Gui! Se toca!

Ficamos uns dois dias nesse embate, até que dei meu típico ataque de pelanca e convenci dona Rosana a permitir meu retorno prematuro a paz de nosso sacrossanto lar no Rio de Janeiro. Nunca fiquei tão aliviado ao voltar para casa - nem mesmo durante minhas crises de síndrome do pânico dos últimos seis meses.
Não lembro exatamente quando - chuto que faz no máximo dois anos - minha mãe chegou do trabalho cabisbaixa, pensativa...

- Filho, lembra do Renan? Fiquei sabendo hoje que ele morreu...
- COMO ASSIM???
- Num acidente de moto dias atrás...

Não sei como lidar com a morte; talvez por ter passado perto dela pouquíssimas vezes. Por dias essa notícia pipocava nos meus pensamentos...

"Ele morreu... Como pode isso?"

Pois é, morreu. Fiquei com pena do pai dele pois, apesar de todas as minhas ressalvas quanto ao nosso passado em comum, caramba, perder um filho deve ser uma das piores coisas do mundo - junto de Michel Teló e Domingão do Faustão, é claro; Renan adorava esse meu humor negro, devo esclarecer.
E agora, dez anos depois, Whitney Houston morre. Por mais que ainda não tenham esclarecido a causa da morte, quem conhece a história da cantora já tem um palpite certo; dorgas, Manolo.
Cá estou eu, com a morte ao meu encalce. Os três elementos fundamentais de um momento super marcante da minha vida já não estão mais vivos, o que me leva a questionar: quando será que essa briga vai acabar de vez? Falta apenas a minha morte para encerrar esse embate deixado em aberto desde 2002. Rezo a Deus para que ela permaneça em suspenso por mais uns 60 anos pelo menos... Ainda que a vontade seja de pedir que ela nunca se resolva. Whitney, Renan ou Cássia, a conclusão é apenas uma: life is a bitch.


Um comentário:

  1. Que sad, Gui... =S
    p.s.: comecei a ler o post e o shuffle botou Let It Be... creepy

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